Se de supetão me vem a mente que o quente pode não ser tão quente assim, então talvez seja uma questão de ponto de vista e, talvez seja também, que o inferno é apenas um modo de se culpar por aquilo que quiseste fazer, mas não o fez.
Foi pensando em todas essas coisas e em outras, que ela pegou o táxi as três da manha e desembarcou naquela porta amarela, já tão conhecida por seus pés e mãos. Parou em frente a porta e pensou em voltar, em não ir, em se esconder, em correr, em pular, em não mais existir ali, mas não pensou em deixar de amar, por isso resolveu tocar a campainha e ver o que acontecia.
Tocou uma vez e esperou, nada. Tudo continuava em silêncio. Tocou uma outra vez, esperou. Enquanto isso, abraçou seus próprios braços, na tentativa de se esquentar, na correria esquecera o casaco. Nada, nenhum movimento. Pensou que talvez a tivessem-na visto pela fresta da janela, tomou distância querendo enxergar um pouco mais, nada, tudo escuro.
Tocou uma vez mais e nada. Pensou que ela não queria mais vê-la, talvez tivesse passado o momento, havia tomado a atitude de voltar atras muito tarde, acontece.
Numa revolta frenética e num impulso totalmente interno- porque sim o coração tem sua própria justificativa- ela começou a esmorrar a porta gritando o mais alto que podia, ficou com as mãos vermelhas e ardendo, mas conseguiu chamar a atenção dos inquilinos da casa, que disse:
- Mas, meu Deus oq eu acontece, menina? Pare de esmurrar minha porta assim que você vai quebra-la.
- Desculpe, senhor eu não quis lhe acordar. Mas, o senhor mora ai? - perguntou com toda sua timidez e vergonha.
- Sim há um ano, porque? - respondeu o senhor já com uma certa irritação.
- Desculpe, vim procurar a antiga inquilina.
Com a cabeça baixa e sem esperança, ela saiu chorando pelas ruas e quase não notou o corpo franzino enrolado em um roupão atras de ti.
Era ela, a antiga inquilina que estava ali postada atras dela, sem entender porque ela havia batido na porta de seu vizinho e não na sua.
- Eu mandei um email dizendo que eu iria me mudar.
- Não recebi, desculpa.
As duas foram tomar um café e até hoje quando lembram desse episodio, enroladas entre as cobertas, se riem, da possibilidade cega de um dia terem se perdido.
Que seja inteiro!
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