Quando olhou o céu,sentiu medo. Será? Que tudo poderia ser o que sempre quis?
Apertou em seu peito o caderno e andou. Chegou até a escola. Dava aulas no horário da manhã e de tarde,naquele dia. Um dia como qualquer outro, dito isso sentiu o peso do mundo vazio em suas costas,poderia gritar?correr?enlouquecer?não, na sala de aula do 2F teria que ficar em suspensão todo o seu pesar,só pra em casa descarregar o que havia lhe moído todo o dia.
Lecionava a tanto tempo, que já lhe era automático,assim como o seu salário miúdo que caia sempre em sua conta,nunca preocupado se lhe seria suficiente ou se teria que dar aulas avulsas de recuperação em casa aos sábados.
Correu para pegar o ônibus e assim chegar ao trabalho que seria o seu último lugar,antes de sua cama quentinha e de se deitar no meio das almofadas acompanhada de seu cachorro. O folgado lhe empurrava com a bunda pra que ela dividisse o seu travesseiro. Não se queixava se não dividisse com ele com quem seria?
Aplicando a prova de Historia pôde observar os alunos. Não,não era professora efetiva,era substituta, um carinhoso codinome pra que esses diabinhos,simplesmente infernizassem sua vida, uma boa explicação do porque não queria filhos. Mentiu. Queria.
Queria sim ter filhos, mas só pra pertencer á alguém. Um filho não seria eternamente da mãe,mas uma mãe é eternamente sua. Á partir do momento que se é mãe, é , e nunca mais deixará de o ser.
Sentou-se confortavelmente na sala dos professores, lia seu livro quando aquele que seria o seu maldito apareceu. Sim,porque quando se tem um amor que não lhe é correspondido, o outro vira o seu próprio maldito.
Fitou-o demoradamente, resolveu com certa timidez, se apresentar ao novo colega de trabalho de sorriso largo e mãos grandes, e passou os próximos 05 anos assim. Ele sentava-se com o café em uma das mãos e os jornais em outra, no outro lado do sofá na sala dos professores e ela gentilmente fingia que ali era sua sala de estar e como se alegrava, ao olhar para o lado e ver seu lindo marido.
Durante este tempo escreveu cartas de amor á ele, ria-se quando ele comentava desajeitado com um outro colega,Outra carta de amor, essas alunas!,no auge da sua imaginação, acreditava que isso era um engano proposital,uma brincadeira entre o casal, que depois riam-se loucamente dos demais professores deitados na cama, vendo TV.
O mundo lhe pertencia, agora eram outras possibilidades nesse amor-faz-de-conta, por que bastava erguer sua imaginação para ter dias de noites frias com conversas ao pé do ouvido,passeios a cavalo no campo,férias longas e cheias de promessas e confidências trocadas. Tinha tudo ao seu alcance.
Na manhã em que se matou, Bernice, sim seu nome era esse. Deixou somente uma carta, do qual muitos acharam ser de uma mulher sozinha e lunática.
- Estou indo, porque agüento o não toque de suas mãos, o não beijo de todas as manhãs e até mesmo as não viagens que fizemos durante todos esses anos. Isso é uma formiga,dentro do mundo que eu criei. Posso suportar e entender! Mas não posso entender e nem compactuar com o fato de você não gostar de cachorros, isso é muito. Não posso ter uma vida imaginativa com alguém que odeie essas pobres criaturas que precisam tanto de nós. Vou,mas com a certeza de que você desfez tudo o que estávamos sendo até agora e te digo,era muito!
Escreveu em letras garrafais o ERA MUITO!. Sim era e ele nem sabia, da missa a metade. Mas não suportou ouvir que Pinaco, não gostava de cachorro e por isso, quando era criança chamou a carrocinha para levar um, dos mil cachorros que andavam pelo seu bairro,mesmo sabendo o que acontecia aos pobres bichinhos.
Se naquela manhã Bernice, tivesse ido ao banheiro antes de pegar seu café, como era de seu feitio, teria ouvido a estória toda. Pinaco não tinha ódio de todos os cachorros, mas somente dos de seu bairro de quando era criança, pois esses cachorros tinham o mal habito de urinar em seus bonequinhos de ação e isso, criança nenhuma podia permitir.
Ela teria hoje os seus 10 anos de casada e não precisaria ter desmarcado, mentalmente, com todos os convidados da festa de 06 aninhos do seu caçula. Uma pena!
Que seja inteiro.

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