segunda-feira, 23 de maio de 2011

Esse Lugar


No dia em que sua mãe teve que sair às pressas, ela sonhou que não conseguia sair do lugar. Tinha os pés grandes de mais para aquele espaço e os calcanhares estavam pregados no chão com um prego brilhante. As portas eram ocas, o lado de fora não existia então, quando você abria as portas e saia, você saia para o nada. O nada talvez seja algo que não exista em si mesmo, pensou totalmente confusa diante daquela porta do nada, porque ao abrir as portas de sua casa, sempre davam para algum lugar: para a sala, para a cozinha, para o quintal ou para a rua. A rua era comprida, do lado esquerdo tinha a farmácia e a padaria, do lado direito tinha a escola que ia todos os dias e a casa de sua melhor amiga. Era um bairro confortável.
Mas no sonho ela estava em outro lugar, não mais naquele espaço confortável: ficou com medo. Medo de ficar presa lá pra sempre, sem as pessoas que conhecia e sem o café com leite preparado pela mãe. Foi quando de súbito, alguém bateu na porta do nada, olhou atordoada, porque aquilo não era possível, os pés foram desamarrados como que por mágica, correu e se escondeu de baixo das escadas que havia no cômodo branco e com manchas na parede- que não havia reparado - a porta se abriu lentamente e um homem com roupas coloridas e de cara pintada encheu o ambiente de formosura e alegria. Ela se espantou, nunca tinha visto aquele ser na sua frente. Aproximou-se aos poucos até encará-lo olhos nos olhos e com a verdade das crianças; que perdemos assim que crescemos e começamos a entender como o mundo funciona; perguntou o que ele fazia ali. Ele agachou para ficar da altura dela e sorrindo lhe disse:
-Estou aqui porque quero, porque sou palhaço e porque esse seu sonho está muito chinfrim, precisa dar um colorido.
-E quem você pensa que é pra entrar aqui e dar um colorido em um sonho que é meu?
-Oras bolas, já disse: sou palhaço. E palhaço faz justamente isso, dá um colorido nas coisas, na vida das pessoas, das crianças que querem crescer antes da hora.
Olhou para a outra porta do nada fixamente e estendeu a sua mão para a menina.
-Você quer ir?
-Aonde?
-Rumo ao desconhecido. Em um lugar que não precisamos nos preocupar com horas, pessoas, mães e escola. Lá nada é real, mas tudo é verdade, lá o verde pode ser azul, basta você querer.....Esse lugar chama: Esse Lugar!
-Isso não é um nome de lugar ou de alguma coisa!
-Não, não é. É que lá têm o nome que você quiser e pode ser o que você quiser, pode ser seu quarto, pode ser a sala da casa da vizinha, pode ser um mundo diferente de qualquer outro ou pode ser,até mesmo, uma caixa preta.
-Caixa preta? E o que fazemos com uma caixa preta?
-Tudo. Podemos fazer simplesmente tudo.

Os olhos dela se encheram de alegria e esperança, com a possibilidade do tudo, porque ela podia não entender das coisas do mundo, mas sabia que tudo significava muita coisa.
Segurou firme na mão do palhaço e atravessou a porta do nada, mas que tinha inúmeras experiências para ser vividas e contadas.
Foi caminhando até a porta da sala, depois foi para o quintal e com um lindo sorriso parou para esperar o ônibus com sua mãe. Sua mãe era uma mulher bonita, mas que não escondia as tristezas da vida e não pôde deixar de notar que sua filha mais velha não reclamara uma única vez.
-Você está bem filha? Ta cansada?
-Não. To bem.

O que sua mãe não entendia era que sua filha estava modificada, era outra. Tinha recebido uma dádiva desde que nascera- talvez - mas que só tomou conhecimento naquele dia: tinha alma de artista. Não sabia se tinha nascido com aquele calor no coração ou se foi lhe dado pelo palhaço, mas não lhe importou questionar, porque isso lhe foi o bastante.
Ela não foi feliz todos os anos de sua vida, como ouviu nas estórias encantadas, mas conservou sua nova alma dá profundezas da escuridão do mundo e voltava em seu quarto particular todas as vezes que lhe fora possível e isso lhe fez ficar bem.
E ela aprendeu que a caixa preta não lhe servia pra tudo, lhe servia pra muito mais, ela podia se modificar, modificar os outros e o melhor tinha a possibilidade, de pelo menos tentar, modificar o mundo.









Que seja inteiro!

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